terça-feira, 25 de dezembro de 2007

sem mais

Não é por nada dama, mas não escreverei um poema para ti. Não há por quê, nunca houve. Eu sou o poema e a sua matéria. Eu, só eu. Egoísmo não, egocentrismo talvez, certamente impossibilidade de outro modo ser. Se eu fizesse irias gostar, e isso me seria tragédia.

Passou por mim o condenado. Não vi seus guardas, mas ele bem via, sim. Os olhos dele que me diziam. Sua cabeça era pressionada por dois fuzis, um do lado do outro. Senti terrores do meio-dia, quis salvá-lo. Mas eu não via os seus guardas.

Alan Araguaia

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Descontruindo as identidades

Não sei se vocês assistiram, mas hoje passou uma matéria sobre Belém no Jornal Hoje. Uma matéria "fria", digamos, perto dos acontecimentos envolvendo a menina que foi estuprada pelos presos em Abaetetuba. Não sei, mas acho que no meio dos acontecimentos, o Jornal resolveu aproveitar que a equipe estava cobrindo esses fatos e fazer uma matéria de "curiosidade" sobre Belém.

Penso ser o tipo de matéria que serve pra calar a boca daqueles que dizem: "Belém (ou o Pará) quando aparece nos noticiários nacionais, é só desgraça". Exceção à regra. Lição para os deterministas.

A matéria começa dizendo da importância de Belém para a coroa portuguesa. Falando de aspectos históricos importantes, como a possibilidade da cidade ser a capital do Brasil pela facilidade de comércio que tinha a região norte com a europa etc. Mas o que mais me impressionou foi outra coisa: a demonstração histórica e sutil de como são criadas as identidades regionais.

A repórter falou da influência da imigração japonesa, comparou o ver-o-peso com as feiras livres da asiáticas e africanas, com frases que apontavam a importância que tem para as pessoas as coisas que haviam se tornado "nossas", ou "da terra".

O Cheiro-do-Pará, por exemplo, em que a essência é feita de uma das mais conhecidas especiarias indianas, o patchouli. Nas entrevistas, esses sentimentos identitários criados com a pimenta-do-reino (a pergunta dela pro feirante do ver-o-peso: "Você sabe de que reino é esta pimenta?") . E a resposta ("Não sei, mas acho que é daqui mesmo. É da terra").

A matéria termina mostrando as hibridizações. As tradições criadas na culinária. Mostra temperos indígenas como o tucupi, misturados com as "especiarias do oriente" como o manjericão e outras ervas, criando a "culinária paraense", e desmistificando uma certa tradição purista que ainda permeia a cabeça de muitos intelectuais e idealistas na cidade de Belém. Achei genial.

Fabrício Mattos

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

"Ao que narro, assim refrio, e esvaziado, luis-e-silva."
(Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa)

Corria no sangue, estava parado.
A vontade de fugir, o raciocínio:
fugir pra onde, com quem?
Querer não estar, mas sendo.
Sendo somente, sem estado.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Ditas

Um

As palavras nunca faltam
elas estão aí à espera
e são muitas as palavras
e se debatem, combatem,
querendo ganhar
o ar

As palavras têm força
quando o coração se esforça
hão de transbordar as palavras
e beijar
e saltar
emprenhar
se esparramar no chão
e ali serem pisadas
letra morta ou não.


Dois

Há pouco quis te dizer
mas já desquis

Alan Araguaia

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Onde está o cartaz do Círio? Parte X


A foto não está muito boa porque foi feita a noite com a câmera de um celular, mas o cartaz está exposto em uma das partes mais nobres de Belém.

Fabíola Corrêa

sábado, 10 de novembro de 2007

Onde está o cartaz do Círio? Parte IX

Ah, essa de hoje está fácil. Será que vocês acertam?


Fabíola Corrêa

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Onde está o cartaz do Círio? Parte VIII

Aja fé. Esse lugar não tem um, mas dois cartazes da Santa. Tudo para abençoar os doentes e feridos que passam por lá.
Sabem que lugar é esse?


Fabíola Corrêa

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Onde está o cartaz do Círio? Parte VII

Ôpa, dia de andar próximo a praça dos guaranás e das noites de ginástica coletiva para as senhoras do bairro. Sabem de onde falo?


Fabíola Corrêa

Onde está o cartaz do Círio? Parte VI

Como não publiquei nada ontem, hoje irei colocar duas fotos de lugares diferentes.
A primeira imagem, feita de dentro do ônibus, passa por uma rua onde circulam bicicletas, veículos, carroças, carros-som; e onde há uma imensa feira dos mais variados artigos que se estende por toda a calçada.



A segunda imagem, a caminho de comer um pastel ou uma esfiha, fica próximo de uma famosa lanchonete. Já sabem?


Fabíola Corrêa

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Onde está o cartaz do Círio? Parte V


Mais uma casa para vocês, freqüentadores da Basílica de Nazaré.
Sabem onde fica isso?

Fabíola Corrêa

domingo, 4 de novembro de 2007

Onde está o cartaz do Círio? Parte IV


Mais uma para quem anda pelas bandas do Pronto Socorro Municipal. Sabe onde está esse estabelecimento?

Fabíola Corrêa

sábado, 3 de novembro de 2007

Onde está o cartaz do Círio? Parte III

Quando você passa tomando um delicioso sorvete paraense da Cairu e se depara com este cartaz, consegue lembrar do lugar?



Fabíola Corrêa

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Onde está o cartaz do Círio? Parte II

Eu acho que essas fotos não estão tão difíceis de acertar para quem é estudante.
E hoje, será que alguém sabe onde estão fixados estes cartazes? Responda nos comentários.



Fabíola Corrêa

Onde está o cartaz do Círio de Nazaré?

O Círio de Nossa Senhora de Nazaré é repleto de simbologias, dentre eles o cartaz cumpre um importante papel. Além da publicidade, a Igreja Católica reafirma sua hegemonia através da imagem da santa estampada no papel colado em diversas portas de casas e de estabelecimentos comerciais. O cartaz reafirma anualmente o quanto a Igreja é forte em nosso Estado, principalmente em período de Círio.

Contudo, o cartaz também revigora e demonstra a fortalecedora fé que o paraense deposita em sua padroeira. É uma forma das pessoas pedirem bençãos e proteção.

Anualmente produzido desde 1926- o primeiro foi confeccionado em Milão, o cartaz daquele ano apresenta linhas de inspiração Renascentista (abaixo). Ele não contém uma foto, e sim uma pintura da Santa rodeada de anjos.

Passados os anos, o simples objeto passou a ter um papel fundamental dentro da festividade Nazarena. No ano de 2007 foi apresentado em suntuosa cerimônia na Praça Santuário no dia 29 de abril, na qual os convivas se viram diante de um show pirotécnico por de trás de gigantes banners pendurados em frente à Basílica de Nazaré.

Quem detém os direitos de imagem do cartaz é a Diretoria da Festa do Círio de Nazaré. Certas empresas o reproduzem com a devida autorização, a fim de presentear clientes e amigos. O dinheiro que se arrecada com essa reprodução via empresas vai todo para as obras sociais da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.

Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio- Econômicos (Dieese)/PA, foram confeccionados para o Círio 2007 cerca de 550 mil cartazes pela Diretoria da Festa. Este número foi acrescido até 700 mil com as confecções feitas diretamente pelas empresas.

O crescimento da tiragem oficial no número de cartazes deste ano em relação ao passado foi de 37,5 %, já que o total produzido em 2006 foi de 500 mil. Nos últimos 10 anos, o número de exemplares aumentou em mais de 120%.

O valor unitário de produção varia entre cinqüenta centavos à um real, ou seja, se calcularmos 700 mil cartazes a um custo de 0,75 centavos, o valor investido seria de 490 mil reais, dinheiro vindo em grande parte da contribuição de fiéis.

Todo ano a foto é feita com a imagem usando o manto do Círio anterior. Em 2007, a imagem apresenta o manto bordado de rosas usado em 2006, e a foto é de autoria de Rosângela Aguiar. A arte ficou por conta da Mendes Publicidade, tarefa que a agência cumpre voluntariamente desde 1991, e traz um fundo repleto de vitórias-régias, fazendo alusão ao tema da Campanha da Fraternidade 2007: a Amazônia. Já o tema do Círio 2007 é “Com a Rainha da Amazônia, formemos comunidades missionárias”.

Com ares de ala da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, a edição 2007 lembra um pouco a de 2003, no qual há diversas flores rosas de jambeiro espalhadas ao pé da árvore, entre algumas folhas verdes.

Particularmente agradou-me o cartaz de 1901, em que a santa está com um manto bem largo, parecendo a saia das baianas que vendem acarajé e cocada pelas ruas da cidade durante o Círio.


Muita gente ainda tem na porta de casa o cartaz do Círio do ano anterior e, andando pela cidade, percebi que dentro de um mesmo perímetro há em torno de 10 casas contendo cartazes. Resolvi então fotografar com o celular algumas delas, e agora lanço um desafio: você sabe em que parte da cidade de Belém (rua, bairro, perímetro, estabelecimento, etc) se encontra o cartaz da fotografia abaixo?



Sabe? Lance suas respostas nos comentários da postagem no blog. Diariamente colocarei novas imagens e, a não ser que alguém acerte a localização, direi o ponto exato daqui há uma semana (a resposta estará nos comentários, assinada por mim).

Fabíola Corrêa

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Mostra de fotografia "Círios: várias festas em uma"


A mostra ainda conta com o apoio da Copy Center.
O evento foi noticiado no dia 30.10 pelo Portal ORM e
também no site Acorda Pará.

Não deixem de visitar!!!

Fabíola Corrêa

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Da inteligência superficial para a inteligência experimental

Sabe, esse negócio que a mídia não aprofunda nada é realmente um problema. Mas também, outras questões são relevantes: como, num ritmo frenético de jornal, tu vais ter tempo pra aprofundar todos os assuntos pautados?
Além disso, como esse aprofundamento é possível já que não temos como saber, principalmente os jornalistas, especificamente de todos os assuntos?

Digamos, cientificamente, que o mais provável é a mídia repetir os significados que estão presentes no entorno social, mas, ao mesmo tempo, não dá pros profissionais serem todos nivelados por baixo. Mesmo quando tu escreves uma matéria do caderno polícia, por exemplo, sem querer chamar a atenção, levando pro lado humanista e tal, vem depois um editor e transforma o teu texto num cartaz com aquela manchete que tu não escrevestes: "MORTO SEM SABER PORQUÊ". Enfim, um dilema.

Eu, pelo menos, sinto falta da mídia falando da própria mídia. E eu não to falando do Alberto Dines, porque que às vezes, sinceramente, é um saco esse Observatório da Imprensa. Eu digo outras mídias falando das mídias porquê acho interessante essa história de "seja a sua própria mídia", hoje tão propagada pela internet. A coisa é tão improtante que nós vimos que já fizeram até campanhas pra descredibilizar os blogs.

Polêmicas à parte, o que eu digo não é apologia às novas tecnologias, mas acho que é uma forma de colocar representações múltiplas, nem melhores nem piores, esse filtro cada um vai fazer, desde que existam. E que existam para além dos modos de dizer do jornalismo tradicional e da empresa que vende a mercadoria-informação ou imagem-marca.

Ainda falando cientificamente, a mídia não é um ator social "par excellence". Os críticos falam de mídia como falam de globalização : "a mídia isso, a globalização aquilo"... Como premissa acho bom pensar que a globalização é um processo que não tem um direcionamento único e a mídia é um campo social, onde ocorrem disputas de poder. Isso é básico.

O que estamos discutindo, sobre a "inteligência superficial" da mídia, também é relativo. Lemos coisas absurdas tanto na Caros Amigos quanto na Veja, ou no Diário e Liberal. Mas notem os tempos diferentes: revista mensal, revista semanal, jornal diário: representações diferentes, fontes diferentes, apuração diferenciada. e nem estamos falando da instantaneidade do jornalismo na internet ou no rádio.

Hoje, por exemplo, vi uma entrevista excelente no Jornal do SBT sobre as Hidrelétricas que estão sendo pensadas na Amazônia. O cara não era daqui o nome dele era Glen não sei o quê, e ele é especialista em questões de energia na Amérrica Latina. Ele detonou, dizendo inclusive que " é impensável que a REDE CELPA leve energia a todos as populações ribeirinhas da Amazônia" E prosseguiu dizendo que uma iniciativa viável era a energia solar para essas populações. Ele disse também do descaso das empresas com as famílias desabrigadas, afirmando que 70% deles não tem nenhum reembolso, falou da questão dos interesses internacionais etc. Só não foi melhor por causa do entrevistador, e acho que aqui que a gente entra. (Se fossemos nós seria melhor? E se fosse um ribeirinho despossado pelas barragens, como seria? E se fosse um representante da CELPa? E se fosse....) Penso que é nessa disputa de acesso que a gente se encontra hoje.

Acho que a vantagem da internet e de ser a sua própria mídia tá no que o Bourdieu fala de conhecimento da intenção. Ele usa o exemplo de Wittgenstein: "uma intenção, encarna-se numa situação, em costumes e em instituições humanas. Se a técnica do jogo de xadrez não existisse, eu não poderia ter a intenção de jogar o xadrez." Nas palavras de Bourdieu: "A intenção política só se constitui na relação com um estado do jogo político e, mais precisamente, do universo das técnicas de ação e de expressão que ele oferece em dado momento".

O caso é que eu já vi Bourdieu sendo citado até pelo Mainardi, ou seja, toda construção é apropriação, desde a "inteligência superficial" até a inteligência experimental, passando também pela inteligência artificial.

Pra compartilhar um pouco dessas intenções e experimentações e maneira diferenciada de se apropriar da mídia, deixo vocês com um vídeo muito doido que eu assisti ainda agora no Youtube. É do glauber rocha. É uma homenagem ao Dicavalcanti, sendo filmado no dia do seu enterro. Ele tem uma idéia de nacional muito diferente da idéia de integração nacional que as redes de televisão, principalmente a Globo, construiram pra nós. Divirtam-se.

Fabrício Mattos

Glauber - Di cavalcanti Di Glauber - parte 1


Glauber - Di Cavalcante Di Glauber - parte 2

sábado, 13 de outubro de 2007

O "Auto" da Naza

Do sagrado ao profano, assim é o Círio. Entre romarias, orações e pedidos de perdão, a festa regada de amor é palco para o pecado. No ano de 2007, a grande romaria do Norte do país trouxe de volta a encenação popular conhecida como “Auto do Círio”.

Por falta de patrocínio em 2006, o “Auto” ficou fora do calendário de festas.Contudo, este ano contou com o apoio do Governo do Estado através da Secretaria de Cultura - Secult e Universidade Federal do Pará - UFPA, o que possibilitou estar mais uma vez pelas ruas da Cidade Velha.

Da música à dança e ao teatro, o “Auto” colore e teatraliza as sextas-feiras anteriores ao domingo de Círio. Na reza, os devotos clamam seu louvor à Virgem Maria e por mais um Círio de vida.

A crença de uma vida mais abençoada traz à cidade turistas, repórteres, fiéis e curiosos. O colorido, a devoção e a comoção popular são o mote para tornar o evento cada vez mais conhecido.

Criado em 1993 pelo Núcleo de Arte- Nuar, da Universidade Federal do Pará, o evento em forma de cortejo foi dirigido nos seus dois primeiros anos por Amir Hadad. Miguel Santa Brígida, o homem responsável por dirigir o projeto desde 1996, nomeou Dominguinhos do Estácio, sambista da escola de samba carioca Estácio de Sá, como padrinho do “Auto do Círio”.

À seguir, alguns momentos da encenação embalados pelos cânticos à N. Sra., cobertos de brilho e fé:

























Fabíola Corrêa

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Engendre la façon

A instalação de vídeo "Permanência", de Val Sampaio e Mariano Klautau Filho,
ficou com o grande prêmio no 26º Salão Arte Pará

ARt
Découvrir
Sentir

Ouvre
Régarde
Interager

Marcher

Barrer une trace du réspiration

Fouler

Sentir la sensation

Prendre em photo
Experimenter le voix du coeur

Peindre
Écrire
Installer la installation
Filmer cette moment

Por quoi?
Qu’est-ce qu´il a sur le mur?

Brique de la réflexion

Avec noir, dormir le narcisism,
sous la imagination du décrire

Construire un fragment de nous

Part

Répart

PAragraphe

RApport.


Fabíola Corrêa

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Intolerância profissional

Marx tinha razão ao falar da especialização cada vez mais específica no mundo do trabalho. O teórico que entre outras coisas conseguiu o feito de inspirar desde alguns dos mais bobos até dos mais geniais exemplares da espécie humana, previu que esse fenômeno seria responsável pela alienação do trabalhador em relação ao produto do seu trabalho (o cara olha um computador por exemplo, e se pergunta meio desconfiado: "eu ajudei a fazer isso?").

Pois bem, eu não sei se Marx previu isso que pude verificar, ou se posso me proclamar o herdeiro do seu legado: além de alienados, ficamos sectários em relação aos colegas que apertam o parafuso B. Basta frequentar um curso de Comunicação por exemplo, para ver como o estudante de publicidade despreza o de jornalismo e vice-versa. Isso se assemelha a conflitos religiosos entre judeus e muçulmanos (até na questão da raiz comum). Na minha sala havia uma clara fronteira geográfica - publicidade ao ocidente e jornalismo ao oriente. Às vezes alguns colegas (não sei se em missão de paz ou provocação), cruzavam a fronteira e se instalavam em território inimigo, gerando estranhamento. Havia também estudantes de jornalismo que se convertiam à publicidade, pelo menos nas relações pessoais.

Ainda não tinha despertado para a dimensão generalizada dessa situação até ontem, quando aconteceu de eu estar almoçando com profissionais e estudantes da área biológica. Conversa vai, conversa vem e eu boiando (eles estavam em calorosa discussão sobre quem iriam presentear com as preciosas bolsas de estudo). "Vamos ver como fulano se desempenha", falou uma jovem professora sobre um ansioso e brilhante calouro de 16 anos, tendo o destino do rapazito nas mãos. "Ele pensa que é só chegar e ir ganhando bolsa? Não é assim não, meu bem!", sapecou outra sobre mais um aspirante.

De repente eles notaram o elemento estranho que comia quieto, sem ter como tomar parte no julgamento, digo, na conversa - eu. A jovem, bonita e simpática professora quis saber o que eu fazia da vida. "Estudo jornalismo", respondi. Pra quê eu fui falar? Todos os pecados do jornalismo agora teriam de ser explicados por mim! "Por que quando damos uma entrevista sempre sai errado?", perguntou a inquiridora mais implacável. Tive vontade de dizer pra ela perguntar a quem a entrevistou por que diabos não escreve certo. Mas eu estava em território estrangeiro, devia ser diplomata. "Ah, é porque eles querem simplificar a história e têm pressa de publicar", falei (e não deixei de ser sincero). Fui alvejado por uma série de questões sobre se isso é certo ou errado, virei ouvidor da categoria - ou como se diz no jargão jornalístico, ombudsman. Prometi dar o meu jeito: "não se preocupem, suas queixas foram anotadas".

Mas eu comecei falando do Marx, trabalho especializado... ah, claro. Eu também fiquei curioso em partilhar um pouco do conhecimento específico daquele grupo. Acabei cometendo uma gafe gravíssima. Tomando refrigerante, uma das moças comentou que refrigerante na garrafa de vidro é mais gostoso. Um barbudinho concordou, opinando que é porque fica mais concentrado. Eu também sempre pensei isso! Fiquei feliz em ver minhas idéias defendidas por outros. Era a oportunidade: "Vocês que são da área, queria saber porque isso acontece", perguntei, com curiosidade de aprendiz de cientista. "Ih, isso é assunto de química", desprezou a jovem ao meu lado. O barbudo foi mais longe: "engenheiro de alimentos", balançando a mão em sinal de distância. Note-se: distância do engenheiro de alimentos, não da engenharia de alimentos. Enquanto isso, fiquei com a impressão de que só não sabia porque perdi na infância algum "X-tudo" ou "Mundo de Beckman" que falava exatamente disso.

O velho Marx, se fosse vivo, completaria a sua tese: a especialização causa alienação
do trabalho e desunião na classe trabalhadora.

Alan Araguaia

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Jornal de ontem, notícia de anteontem

Uma das grandes dificuldades em acompanhar a mídia é a enxurrada de "informações" que ela descarrega diariamente na atmosfera. Assuntos relevantes acabam sendo mais descartáveis que um cotonete, quando poderiam dar ocasião para grandes debates - é o caso da apocalíptica (não em sentido pejorativo) previsão de que a continuarmos nesse ritmo de consumo, o mundo entrará em colapso em poucos anos. Ora, o assunto é da mais alta importância, porque sem mundo não teremos mais o jogo de futebol, a violência nas grandes cidades, a lenga-lenga de Brasília, "Paraíso Tropical", etc infinito. Mas assim como nos acostumamos com a idéia de que a periferia é uma praça de guerra mesmo e o melhor é ficar longe, estamos já mais ou menos conformados que o metano não tarda a nos sufocar, os oceanos vão avançar sobre os litorais e vai ter que começar tudo de novo (não sei se aqui ou em outra esfera suspensa no vácuo).

A coisa está tão séria que não faltam metidos a sabichões a dizer (acho tão bonito a forma lusitana pro presente contínuo) que é "lugar comum" falar do aquecimento global, do tsunami, da escassez de petróleo... coisa de quem não tem o que falar. A sanha por um assunto novo a cada edição cega as pessoas. A nossa mania de não se aprofundar em nada, ver as coisas passarem, ainda nos leva pro buraco. Por falar nisso, alguém sabe como anda aquele da camada de ozônio?

Alan Araguaia

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Velocidade de conexão

Finalmente as instituições paraenses conseguiram um motivo pra causar inveja em instituições de outras regiões. É que por esses tempos foi instalada no estado do Pará a rede metrobel, rede de fibra óptica com 52 km de extensão, que permite conexão de alta velocidade à todas instituições parceiras do convênio firmado entre o governo do estado e a eletronorte . A conexao de 100gb, mil vezes mais veloz que a mais rápida conexão oferecida pelas operadoras da região, vai permitir que as 12 instituições de ensino e pesquisa públicas e privadas beneficiadas pelo serviço tenham capacidade de realizarem vídeo-conferências, tele-medicina, ensino a distância, acesso a acervos digitais e ampliação de pesquisas avançadas que exijam transmissão de dados de grande capacidade. Enfim, algum avanço aparente. Mas como sempre, temos a boa e a má notícia. A má é que para que haja 100% de aproveitamento dessa absurda velocidade de conexão é preciso que os aparelhos usados pelas instituições (posso falar com certeza da ufpa) sofram pequenas modificações, como por exemplo sejam trocados os suites, que eu descobri um dia desses, é o negocinho em que o cabo de conexão é plugado. Os que estão instalados hoje, tem capacidade de aproveitamento muito inferior ao que é disponibilizado pela rede metrobel. Claro que isso exige investimento, ou seja, a universidade precisa liberar grana, o que não é tão simples e fácil como muitos pensam. Mas pelo menos já estamos no meio do caminho.

Nerusa Palheta

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Bons momentos

Um bom momento é sempre bom
acontece e traz vibrações positivas
momento bom é quando a alma dá saltos de felicidade
ou sente que de nada precisa
é calma, equilibiro, sabedoria
é estar em paz,
é estar bem em todos os sentidos
é se sentir amado, se sentir amigo
é estar feliz por estar vivendo aquele momento
é tão intenso que a gente quer que seja eterno
e é eterno enquanto dura
e se eterniza na memória
porque a vida é feita de momentos
e bons momentos fazem nossa história.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Princípe ou sapo... Eis a questão.




Desde a infância, as mulheres foram educadas e até persuadidas a esperar por um conto de fadas com direito a príncipe encantado daqueles que chegam na hora certa com uma atitude heróica acabam com os problemas e transformam positivamente a vida delas, um príncipe tão perfeito que em alguns momentos até se confunde com super herói, já que beijos com poder de ressuscitar e sapos que podem se transformar em homens maravilhosos, são inegavelmente super poderes!
Assim, crescem aguardando ansiosamente o momento de encontrar o príncipe encantado, de viver o conto de fadas, o final feliz... Mas infelizmente a maioria das histórias não tem roteiro bem escrito ou final cinematográfico. Então conhecem a desilusão, a dor e a frustração de acreditar... Seja em conto, fada, amor ou em alguém específico.
Ser mulher é sempre mais difícil e doloroso, pois é o sexo erroneamente denominado de frágil que agüenta as maiores dores. Até biologicamente falando, a mulher é mais forte, agüenta dor da cólica, da primeira transa, do primeiro filho... Agüenta dor de amor, dor de cotovelo, dor de ego ferido.
Amor de verdade é tudo que uma mulher quer e passa a vida toda procurando, roteirizando, fazendo filmes e trilhas sonoras mentais, idealizando a chegada do príncipe, seja a cavalo ou carro importado, desde que mude fantasticamente a vida dela e faça brotar sorrisos ao invés de lágrimas. Por isso o sexo feminino sofre demais, as mulheres têm um grau superlativo intrínseco em tudo que fazem. Vivem, amam, choram e esperam mais...
Em contrapartida, amadurecem primeiro, sobrevivem mais fortes, seguem firmes pelo caminho até o dia em que aprendem que contos de fadas não são reais, assim como não são os príncipes, sapatos de cristal e similares.
Depois dessa incrível descoberta aprendem a viver no mundo real em que até sapos estão em extinção, pois estes numa outra realidade podem até se transformar em príncipes, mas os pseudo príncipes da vida real, em que se transformarão?


Natascha Damasceno

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Por que escrever?

Escrever se coloca como uma questão de sobrevivência pra mim. Essa frase certamente não é nada original, profunda, e duvido mesmo que seja verdadeira. Mas escrevi, está escrita. Me recuso, agora, a rever as minhas construções palavrais, numa busca obsessiva pela auto-censura. Mas vejam só como esse agente infiltrado trabalha bem: nessas quatro linhas já fiz inúmeras correções.

Sinceramente, sinto inveja das pessoas que não precisam escrever. São os tais "bem resolvidos", expressão cretina e de significado obscuro. Resolvidos do quê? Resolveram alguma coisa, resolveram a si mesmos? O que é que se resolve? A parte esses questionamentos próprios de "confusos", o fato é que essa categoria de iluminados esbanja espontaneidade, desencanação, falam e fazem as maiores cagadas e depois estão aí, lindos e serelepes, prontos pra atazanar de novo. Não vou cair na tentação de chamá-los de ignorantes, os despreparados que não tomaram a pílula vermelha (ou é a azul?), e não sei que mais historinhas inventadas pelos cabisbaixos pra dar uma turbinada no ego. Não pô, eles é que estão certos. Pra quê complicar a vida? A ordem é relaxar e gozar. Esse estado de espírito se aproxima do dos outros animais, e não falo isso pra sacanear. Os outros animais não têm todas essas categorias e sub-categorias em suas psiques, e não aparentam sentir a menor falta disso. Acho que o prêmio pra quem se comporta direitinho é voltar na forma de pássaro, leão, sapo...

É. Como eu ia dizendo, escrevo pra não pirar de vez. Tenho feito meditação também, ou pelo menos tentado. O importante é varrer uma série de inutilidades que povoam a cachola, e ficar só com o essencial. Os dois métodos funcionam. Claro que escrever é bem mais fácil, e justamente por isso é o que eu mais pratico. Quando eu atingir o nirvana, vou escrever só por diversão e com certeza por motivos profissionais. Talvez demore, talvez nunca aconteça. A gente faz o melhor que pode. Digo por diversão, porque percebi que tô dando uma dramatizada na minha situação. Tenho essas viagens. Já estava me imaginando o próprio Dostoievsky escrevendo sobre o que o levou a ser escritor. Por sorte eu tenho uma vozinha lá das profundezas que me alerta, serenamente, sobre os perigos da subida. Dificilmente eu a escuto, porque ela é super careta e eu ainda sou bastante rebelde. Só que ela sempre tem razão.

Não sei como continuar esse texto, mas teimo em continuar. Isso não é nada engraçado. Precisar escrever, não saber o que escrever e não querer escrever aquilo que se precisa. Apesar de tudo, não me lembro de paixão mais compulsiva do que esse meu hábito de escrever.

Alan Araguaia

domingo, 12 de agosto de 2007

A intérprete

Enquanto eu fazia uma varredura pelo fluxo mental, em busca de matéria-prima para a realização literária - o que era um grande aborrecimento - você se deitava no sofá com as pernas descansadas no raque, lendo sua revista semanal, ao mesmo tempo em que tentava puxar uma conversa comigo. Tudo você fazia com muita naturalidade e parecia que nada era capaz de expulsar a serenidade de seu rosto. Eu não podia conversar com você enquanto tentava me concentrar em minhas idéias, e isso me chateava ainda mais, pois ouvir a sua voz era mais atraente do que continuar com essas tentativas frustradas e por vezes patéticas. Uma vez mais renunciei a essa minha vaidade intelectual para falar das suas coisas de jornalista atenta. Meu imenso egoísmo me impedia de me interessar por tais assuntos, pois escapavam totalmente ao meu controle e círculo íntimo, e exatamente por serem muito grandes eu as considerava minúsculas.


Mas esses assuntos sociais, econômicos, políticos, e os domésticos, colocados pela sua voz adquirem um significado radicalmente novo. Você é a minha ligação com esse mundo que insisto em rejeitar, pois te amo e esse amor abarca as coisas que você ama. Quando te conheci, você estava rodeada daqueles sujeitos que eu repugno, e aos quais ironicamente sempre estou me igualando, tornando-me um deles, ou ainda mais mesquinho, hipócrita e vazio. Todos nós, homens da mesa, queríamos chamar a sua atenção, todos nós nos esforçávamos para ofuscar a inteligência alheia. Nessa guerrinha pelo direito de acasalamento eu adotava a estratégia do silêncio contínuo alternado por frases lapidarmente elaboradas. É óbvio que estava em grande desvantagem, por esse excesso de polidez e covardia dissimulada. Só que você era generosa com todos, distribuía sorrisos amáveis e respondia com grande interesse aos mais disparatados comentários. Aquele cara ao seu lado, o mais alcoólatra dentre nós, já tinha os olhos turvos e falava mais alta e ousadamente que os demais, e você gentilmente informou-lhe que estava exagerando. Reprovei com o olhar a forma condescente com que tratavas o néscio. Você já exagerava no espírito de caridade!

- Não sei porque ainda insisto em andar com vocês, bando de vermes. - falei em voz alta e rapidamente, como se fosse uma contração involuntária. E de fato era. Minha intenção era somente pensar. Entrei em pânico ao ver os olhares deles todos coléricos apontando estáticos em minha direção, e o seu ao ouvir tamanho absurdo. Eu quis sumir.

- Se andas com a gente, só é possível que sejas mais um verme, como nós. - finalmente disse aquele dentre eles que eu respeitava, o que aumentou a minha vergonha. Ele estava sério e visivelmente decepcionado com a minha arrogância. Eu me esforçava em encará-lo, realizando um esforço emocional olímpico. Eu pedi perdão e quis me levantar da mesa. Você deteve o meu braço, fitou os meus olhos, e disse, quase rindo:

- Ah, que bobagem! Senta aí! É visível que vocês se adoram, e por isso não se desgrudam!

Eu me acomodei de novo, enchi meu copo de vodca, e bebi até a metade. Só assim pude relaxar. Até fiz brincadeira sobre aquilo. Não me dei conta da hostilidade que ainda pairava sobre mim.

A mesa foi se esvaziando com o avançar da madrugada, te perguntei sobre o ônibus que ias pegar. Vibrei por dentro quando você disse que era tal, o que eu também pegava. Não precisaria mentir para te seguir. Passado o efeito do álcool, supus que me desprezavas pelo comentário de antes. Tomado de medo, procurei a tua boca e encontrei-a totalmente entregue. Nos despedimos aquele dia, te telefonei e por algum motivo, no meio da conversa, me entristeci profundamente, e não quis mais te ver.

Estamos aqui, após seis anos, reencontrados. Você viveu muitas coisas pelo que me conta, deu dez voltas pelo mundo enquanto eu não saí do ponto em que senti a tua boca totalmente entregue. Estás quase casada, é impossível negar o amor que envolve a aura comum de vocês dois. Não consigo me ressentir por isso. Te ver despertou em mim o há muito adormecido desejo de escrever. Mas deixo isso para depois. O mundo cantado pela tua voz soa com uma beleza indescritível.

Alan Araguaia

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

The wall

Mais um mês, outro verão. Acabou. Foi julho, é agosto.

O ontem das praias lotadas, das sestas e das paqueras. Um quê de religioso, a bebida faz-se sagrada nas “louras” dos botecos, “engarrafando” as mentes. Desfrute do descanso, dias de revisão. Manutenção. Modificação.

Mudar, o tempo todo. Sempre. Cada minuto, segundo , milésimo de segundo. Um grão de areia move-se, e o que era há um instante, se desfez... A gota d’água evaporou, alguém chorou, outro sorriu, enquanto partiram-se. Partiu, o que foi, o que éramos, o que se construiu.

Mas a vida é assim, uma eterna construção e destruição. Shiva, renova! Aponta sua trishula para os homens. Retire a inércia e instale o bem, alegria e amor.

Confraternizamos, conversamos, compartilhamos, descansamos. É tempo de renovar, olhar a si e ao próximo, inicia um novo ciclo. Momento de trabalhar duro, cumprir os deveres e exigir os direitos.

Basta de impunidades! Não vendam a ilusão.

Expulse a inércia, convide o trabalho. Pensai-vos em prol de cada um e de todos nós.

Julho, se foi. Vivemos, está lá.

Agosto... Mês de confraternizações, renovações e reordenações.

Qualquer coisa que façamos em prol de nosso próprio bem-estar e no dos outros, é construtor. Elevarmos-ei o muro das virtudes!

Não queimem florestas, nem roubem ou joguem lixo na rua. Ame(é)m!

Nosso bem-estar é o resultado do convívio harmonioso entre todos.

Damaru, tocai a canção. Controle o tummo.

Re-união.

Fabíola Corrêa


Vídeo “A história da não-violência”, parte 2/5.

A parte 1 do vídeo foi publicada no dia 17 de março de 2007.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Os conhecidos também morrem

Quando soube da morte do Professor Lauande (hoje de manhã), fiquei um tempo sem acreditar que fosse a pessoa que eu estava pensando. As informações batiam: Lauande, comunista, professor de Sociologia... ainda tenho uma sensação estranha toda vez que sei que um conhecido meu (mesmo que seja de vista, como praticamente se trata nesse caso) morre. Isso significa que ele não existe mais. Sei que as pessoas morrem, mas é diferente quando se viu elas vivas, raciocinando, se movimentando... O cérebro do Lauande não pensa mais! Seu corpo não se move mais! Sim, podem argumentar que suas idéias continuam vivas, quem quiser acessar o blog dele e estiver desavisado pode pensar que nesse momento ele está pensando no próximo post... porque seus textos são uma prova em contrário, estão lá, escritos no presente: eu acho, eu tô vendo, lendo... Tudo bem, mas não é disso que eu tô falando.

Fui aluno do Lauande no segundo ano do ensino médio, no CEFET, numa época em que fui comunista, assim como ele. Um comunista não muito autêntico, com muitas dúvidas políticas e existenciais - esse tipo de coisa que vai minando o comunista. O próprio Lauande era um comunista do século XXI, pois defendia a democracia. Também tinha toques de anarquismo, já que não tolerava provas e notas. Todo mundo tirava 10 com o Lauande, mas era perceptível a olhares mais atentos que para ele aquilo não passava de números, exigências canhestras do sistema de ensino capitalista. O que ele pretendia enquanto professor era esgrimar contra o comodismo pequeno-burguês de nós, adolescentes. Isso com um fino senso de humor, de forma que as provocações passavam desapercebidas a muitos. Não durou muito como nosso professor. Logo foi substituído por uma gordinha que adorava provas, notas e listas de frequência. Mas que era só isso.

É o que eu lembro de Lauande e foi assim que nossas existências se cruzaram. Ele, em sua solicitude, ainda nos deixou no quadro o seu email. Lembro que anotei e que começava com a palavra "mocajuba" e o número 21. Vendo o perfil no seu blog, entendi que Mocajuba tinha um significado especial para ele. Já pensei em mandar um email para ele, mas é aquilo que já falei: nunca pensei que ele fosse morrer.

Alan Araguaia

sábado, 21 de julho de 2007

Verdadeiros amigos


Criamos datas para comemorar relações que na verdade acontecem todos os dias, independentemente das festividades. Seja o dia das mães, dos pais; hoje, 20 de julho, celebra-se o dia do amigo. Ah, mas para isso não precisa de data, é só chamar para uma mesa de bar, para ver o luar e o pôr-do-sol, ou simplesmente para estar ao lado, todos as horas.

Amizade é ligar no meio da noite para saber como está, dar boa noite e receber um sorriso em troca, abraçar, apoiar, chorar junto, chamar a atenção, rir, cochichar, olhar ternamente, aconselhar...

Não é qualquer um, o colega, alguém que conhecemos ontem e nos chamam de “amigo” porque simpatizou ou nos achou “legal”. Amigo não nasce do nada, de um dia para o outro, do inoportuno. É um processo de caminhar, construir a confiança e o sentimento de fidelidade.

Palavra tão proferida, carrega um forte significado muitas vezes profanado e jogado ao vento. Tão profundo, é fortaleza, verdadeiro e lúcido.

Um amigo que trai, nunca foi amigo, porque os verdadeiros são fiéis. Assim como Deus e nossos pais, as grandes amizades acontecem pelo amor, carinho, atenção e empatia. Professores e alunos, todos os são. Estamos sempre ensinando e aprendendo.

Eles dão o chão que nos falta, cintilam entre o céu estrelado, florescem os campos verdejantes, ouvem-nos como músicos e nos amam incondicionalmente. Amar, sentimento que move o mundo, é a base das verdadeiras relações de amizade. O amor constrói.

Tal diz a música, “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito...”.

Amigo é assim, nos diz o quanto somos importantes sem precisar usar as palavras, ama pelo que somos, compreende e confia. É o irmão que não se teve, uma extensão da família.

Amigo é isso, não sei explicar. Ele É.

Amo-os, amigos.

Fabíola Corrêa


"Here comes the sun", cantada por Nina simone. Música dos Beatles composta por George Harrison.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Metalinguagem 2

Corporativismos ou espíritos de corpo a parte, tenho que registrar aqui críticas pontuais ao curso de Comunicação Social da UFPA. Falo pontuais, porque reconheço que o curso tem evoluído, baseado tanto em minha experiência pessoal quanto em relatos de dinossauros, mamutes, e outras espécies pré-cambrianas do curso.

Esse ano tivemos um Intercom-Norte sediado aqui, e posso dizer que valeu o esforço - estive ajudando na organização. Os laboratórios, especialmente o de TV, melhoraram bastante, com novos equipamentos e técnicos.

Existe uma nova geração de estudantes que encaram a universidade como algo além das salas de aula. Cito em especial o pessoal do Cardume, que traz computador e datashow de casa, corre atrás de autorização para usar os auditórios e loca os filmes (de última hora, mas locam) para exibir de graça, tudo por conta própria, sem esperar os messias estudantis ou a misericórdia institucional. Enfim, o curso de comunicação respira novos ares.

As críticas pontuais se referem ao seguinte: o desleixo da coordenação do curso quando se trata da contratação de professores substitutos. Vejam, não é preconceito contra os professores substitutos, porque ser substituto não é atestado de incompetência. Prova disso é que atualmente temos professores dessa situação empregatícia bastante dedicados e qualificados. Mas por que, sempre que se abre concurso, aparece uma ou outra peça que deveria passar longe de uma universidade?

Pessoas que declaram abertamente não gostar de dar aula, estarem só fazendo um "bico"; outras que não tem condições mentais e/ou emocionais para exercer a função. Depois, o aluno passa por chato, por aquele que exige muito e não olha pros seus próprios atos, quando se revolta com eles e organiza abaixo-assinado, discute com professor em sala de aula... eu acho que antes não ter ninguém do que ter alguém pra "avacalhar" ou só pra dizer que o quadro de professores está completo.

Ora, esse artigo é bem factual... os estudantes de jornalismo da federal bem o sabem.

Alan Araguaia

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Perdão

Perdão Senhor
Perdão Mãe
Perdão Divino
Perdoa amém

Perdão mãe
Perdão pai
Perdão irmão
Perdão avós

Perdão tios e tias
Perdão primos e primas
Perdão amigos
Perdão professores

Perdão ex
Perdão és
Perdão sim
Perdão (aos) saudosos

Perdão amores
Perdão amados
Perdão apaixonado
Perdão sincero

Perdão aos que me machucaram
Perdão aos que machuquei
Perdão aos que ainda não perdoei
Perdão aos que ainda não me perdoaram

Perdão pelas palavras
Perdão pelos atos
Perdão pelo olhar
Perdão pelo sentir

Perdão pedido
Perdão perdido
Perdão partido
Perdão parido

Perdão esquecido
Perdão lembrado
Perdão guardado
Perdão falado

Perdão
Perdôo
Perdoei
Perdoai-me.

Fabíola Corrêa


"Empty house" - Air

sábado, 23 de junho de 2007

Metalinguagem

Caros amigos,

Esta postagem é para falar de nós mesmos. Muita gente não sabe, mas ontem foi encerrado o IV Congresso Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Região Norte, o Intercom Norte, que aconteceu em Belém de terça (19/06) a sexta (22/06). Antes de tudo, esta é uma postagem de agradecimento.

O controversus foi eleito pela comissão julgadora do Expocom Norte (Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação da Região Norte) como o melhor trabalho da Região Norte na categoria Jornalismo, modalidade Revista Digital. O Projeto Controversus agora será apresentado em Santos, no Intercom nacional. Nosso blog é o representante da Região Norte (muita responsabilidade!).

A equipe do Controversus gostaria de agradecer, primeiramente, a todos os professores do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Pará, tanto os de jornalismo quanto publicidade, pois nós acreditamos numa formação plena, interdisciplinar, híbrida. São estes princípios que nortearam e norteiam as intervenções neste blog.

Mais especificamente gostaríamos de agradecer ao Professor Lázaro Magalhães, que nos deu todo o apoio e acreditou no projeto desde a sua fase de elaboração, na disciplina do Laboratório de Jornalismo Digital e Novas Mídias, até agora, quando ganhamos (ele fez inclusive uma "revisão" conosco das características principais da hipermídia, hehehe) . Valeu Lázaro!

De fato, o Intercom Norte foi uma vitrine dos trabalhos da UFPa. Apesar de todas as críticas (pertinentes) feitas ao curso de Comunicação Social, pelo menos 70% dos trabalhos experimentais aprovados são da Federal. Isso mostra, sem demagogia, que nossa formação não é tão deficiente assim. Claro, muita coisa ainda precisa mudar, e pra isso precisamos da compreensão e união de alunos, professores e profissionais. Essa luta é nossa e é interminável.

Não podemos deixar de dizer que alguns bons trabalhos de universidades particulares, como Unama e Iesam, por exemplo, também estão representando a Região Norte. Isso é um sinal que a mentalidade das universidades particulares de Belém está começando a mudar, sendo que muito dessas mudanças são resultados de intervenções dos profissionais (principalmente os professores) que atuam nessas universidades e estimulam os alunos a participarem de um congresso como esse, provocando o pensamento crítico (em especial sobre a Amazônia) e a uma experiência de vida diferenciada, com o contato com produtores de conhecimento em toda a região Norte.

A equipe gostaria de agradecer também à coordenadora do Intercom Norte, Professora Maria Ataíde, por ser prestativa e simpática conosco no cogresso inteiro. Alguns membros do Controversus, como a Fabíola e o Alan, tem mais agradecer do que eu. Eles participaram da comissão organizadora do Intercom e trabalharam diretamente com ela. Eu conheci a Ataíde há pouco tempo, e a escolhi como orientadora do meu trabalho de conclusão de curso. Ela aceitou. Bom pra mim :) Ela é uma pessoa dedicada e determinada, que chegou na UFPa recentemente, há apenas de dez meses. O Intercom Norte foi considerado, pelos representantes da organização nacional, o maior encontro de Comunicação da Região Norte, tanto em termos qualitativos como quantitativos (mais de 1000 participantes). A Comunicação Social da Região Norte, principalmente em Belém, agradece a ela. Com esse congresso, ela conseguiu mostrar pra nós estudantes, professores e profissionais de comunicação, que é possível mudar, é possível fazer diferente, é possível fazer a diferença.

Eu gostaria de agradecer à minha companheira ( namorada e melhor amiga) Ana Paula Freitas, que elaborou um desing mais arrojado para a minha apresentação no Expocom Norte (tava tudo em preto-e-branco, só texto, muito ruim mesmo!), além de me apoioar sempre, pricipalmente depois que recebi a notícia que iria apresentar o blog.

Por último, agradeço aos meus amigos do Controversus:
Natascha Damasceno, pelas suas contribuições para as dicussões no blog.
Fabíola Corrêa, que apesar de me dar essa apresentação em cima da hora, correu tudo bem. Ela foi a pessoa que mais acreditou nesse projeto, sempre o alimentou e quis levá-lo até o fim.
Nerusa Palheta, grande amiga, apreciadora das artes, da fotografia e dos clássicos da música brasileira, como mutantes , secos e molhados, etc. Muitos debates rolaram a partir daí.
Alan Araguaia: grande amigo (melhor amigo) do curso de Comunicação Social da UFPA. Nossas discussões vão desde a sala de aula até a mesa de bar, claro. Já chegamos ao absurdo de ler Platão, "A insustentável leveza do ser" e "Os carbonários", por exemplo, no Copo Sujo e em outros bares perto da saída da Federal, não dá pra lembrar o nome de todos porque alguns não tem nome e minha memória também não é tão boa assim.

Obrigado a todos!

Fabrício Mattos

domingo, 17 de junho de 2007

Amar, amor


Ontem conversava com uma amiga e falávamos de nossas aventuras e desilusões amorosas, de pessoas que passam em nossas vidas e deixam marcas intransponíveis, como furacões: Chegam, arrasam e vão embora. O que fica?

Bem, depende de como encaramos essas histórias. Às vezes, nem nós mesmos entendemos o que sentimos, há mágoas, ressentimentos, decepções e frustrações. Confusos, damos um passo adiante, em busca do crescimento .

Algumas pessoas entram e saem de nossas vidas sem avisar, e quando nos damos conta, ficou-se uma marca, que sangra, sangra até cicatrizar. Quando tudo parecia mágica, o momento perfeito, tudo se esvai. E o que mais dói? É o desrespeito, a incompreensão, a falta de carinho. Você se dedica a alguém e investe seu tempo e energia, mas a recíproca não é verdadeira. Em troca, um beijo de consolo e, quem sabe, uma noite de amor. Amor, mas o que é isso? Quem inventou essa história de amar?

Em um sentido amplo, amor é um forte sentimento de apego. Origina do latim amore,definido pelo Dicionário Aurélio como “(s.m.) 1. Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa... 2. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro ser ou a uma coisa; devoção; culto; adoração... 9. Afeição, amizade, carinho, simpatia, ternura. 10. Inclinação ou apego profundo a algum valor ou a alguma coisa que proporciona prazer, entusiasmo, paixão”.

Existem tantas formas de amar: próprio, a Deus, de mãe, filho, amigo, companheiro, etc. E tipos de amor: fraternal, sentimental, sexual, platônico, romântico. A certeza de que estamos inebriados de amor entre parceiros é quando sentimos pelo outro admiração e desejo sexual, companheirismo, dedicação, afeto e respeito.

Segundo o apóstolo Paulo, “o amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (I Coríntios 13: 4-7).

O processo químico envolve os neurotransmissores dopamina, feniletilamina e o hormônio ocitocina, este último exerce um importante papel no estímulo sexual e na reprodução humana. A dopamina é sintetizada por certas células nervosas que agem em regiões do cérebro promovendo, entre outros efeitos, a sensação de prazer e a motivação. Já a feniletilamina é responsável pelas sensações e modificações fisiológicas que experimentamos quando estamos apaixonados, controlando a passagem da fase do desejo para a fase do amor, está presente no chocolate e é usado na elaboração de substâncias psicoativas, pois proporciona a sensação de prazer, a exemplo do ecstasy.

A Dra. Helen Fisher, antropóloga da Universidade Rutgers e autora do livro The Anatomy of Love, fez um quadro com as várias manifestações e fases do amor e suas relações com diferentes substâncias químicas no corpo:

Manifestação

Conceito

Substância mais associada

Luxúria

Desejo ardente por sexo

Testosterona

Atração

Amor no estágio de euforia, envolvimento emocional e romance

Altos níveis de dopamina e norepinefrina

Baixos níveis de serotonina

Ligação

Atração que evolui para uma relação calma, duradoura e segura

Ocitocina e vasopressina

Fonte: Site BoaSaúde, texto A Paixão sem Mistérios? A Anatomia, a Química e a Biologia do Amor

Como se vê, amor envolve todo um processo de substâncias e não está ligado somente aos sentimentos. Ah, mas o furor das emoções, do olhar terno, do beijo caloroso e do afago carinhoso, isso ninguém explica.

Voltando a conversa sobre relacionamentos, cada um define o grau de importância que outra pessoa tem para nós. Ainda que duas pessoas estejam juntas, o grau de interesse pode não ser igual, podendo significar um breve momento para um ou um duradouro compromisso para outro.

Amar é tão bom, é o nosso combustível que nos faz viver, impulsiona para frente e nos dá força, estimula e cativa. Mesmo que nos decepcionemos, que alguém não seja o que esperávamos que fosse (seja pelas atitudes, pelo tratamento e envolvimento), ainda nos resta a esperança de achar o verdadeiro amor.

Olhar para trás, sentir tristeza e decepção, e acreditar que o novo virá e sorrirá para você é chamado de “esperança”. Esperar que algo de bom venha nos agraciar, de que, como sendo únicos, completamo-nos por si sós, e amemos ao nosso ser e de que outro nos aceitará como somos, repletos de virtudes e defeitos.

Eu espero por muitas coisas, sucesso, realização profissional e pessoal, o amor verdadeiro. Eu e a torcida do Flamengo. Enquanto isso não vem, a gente vai trabalhando pra ter, caindo e aprendendo, deixando pra trás as pedras do passado e sorrindo para as flores do presente.


"Only you", Portishead


Fabíola Corrêa

sábado, 2 de junho de 2007

Coisas quaisquer

A fera
Fera que se debate nas paredes de pele
ávida quer devorar o distante
se se liberta corre em exaspero
pois o domador ronda e ameaça
não sejas tão bruta
deixa a vontade sentar e
saboreia junto à mesa

Gritos e gargalhadas perpassam meu muro
com uma cratera no meio
tento compreender por que
ele já estava aí quando cheguei

As ruas de minha cidade são feias
o calor aumenta minha ira
me pego a conversar comigo
querendo mais daquilo
que não provei

As palavras não servem
senão para sua própria procriação
melhor é calar-se
e sorrir sem constrangimento

Não sei se o que faço é poesia
nem se o que digo faz sentido
só quero saber se o que sinto
pode ser mutacionado em linguagem.

Alan Araguaia

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Melodia errante

Como dizer o que deve ser dito?
Palavras?
Imagem?
Som?

Para quem dizer o quê?
Ensejo falar, mas como fazer?
Ouvirá?
A voz ou o coração?

Viver de falácias
Aparências lúdicas
Pôr-se em escrito
Ditos do olhar

Olhos da alma
Pele
Voz
Ouvidos

Sinais
Marcas
Rastros
Um fio de cabelo

No vento se vai
O que se deixou
Fazer o quê?
Percorrer

Ilusão é acreditar que tudo é real
Quando o real está além da ilusão
Ilusório é sonhar
Um sonho de ilusões

A verdade está lá
Pulsante de desejos
Empanzinando pensamentos
Entre o monção das horas

No acorde das passadas
Uma pausa, reflexão
Tocando o Dó
Staccatos de orvalho

No legato dos passos
Solea, solea
Pizzicato entre as notas da vida
Toca a canção e faz delirar.

Fabíola Corrêa



O virtuosismo do violonista espanhol Paco de Lucia tocando "Entre dos aguas"

terça-feira, 29 de maio de 2007

Pensamentos e sensações


Ás vezes penso que Lygia está me deixando doida. Mas não era a própria vida que andava me enlouquecendo? Então paro. Olho-me no espelho, afundo as mãos no cabelo e acabo deixando tudo pra lá, como sempre. Andava me confundindo perigosamente com suas personagens. Misturava-me com seus pensamentos e acabava engendrando uma lógica não minha de raciocínio. Já fui Ana Clara, Lia de Melo Shultz, até aquelas que não mereceram um nome. Mas a que mais se perde em mim – ou eu nela? – teve um: Lorena Vaz Leme. Uma menina alegre, leve, de passos flutuantes, que procura sempre a beleza das coisas, enfim... encantadora. Posso perceber cada passo da metamorfose e ainda assim de repente não sou mais eu quem segura o livro, mas alguém que não reconheço, alguém que estranho. Quando o fecho, o retorno à minha consciência.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

A perfeita imperfeição da literatura

Alguns escritores transmitem uma serenidade quase transcendental. Lemos as suas palavras e é como se ouvíssemos uma voz bem suave de alguém que parece já estar em outro plano. Outros nos causam indignação, e nos faz sentir identificados com a sua miséria demasiado humana. Em ambos os casos a literatura é um exercício de transfiguração, teletransporte (quando é literatura boa, claro). Sentimos prazer tanto quando vislumbramos pelas páginas de um livro uma existência melhor, sentimentos mais nobres do que a nossa mesquinharia cotidiana, quanto ao perceber que não somos os únicos, nem os piores dos seres. Nossa pequenez então assume uma nobreza emprestada.

O diferencial dos grandes escritores da literatura universal é sintetizar em um único volume a complexidade dos sentimentos e personalidades humanas. A literatura é tanto melhor quanto mais imperfeita for a realidade que apresentar. Um grande escritor não faz do seu último parágrafo uma conclusão. Ele nos faz ter vontade de retornar ao começo e procurar por nós mesmos o que ficou por se compreender. O bom disso é que as possíveis explicações nunca terminam.

Aliás, um grande romance pode ser concluído e ponto final. Mas deve sugerir que o leitor duvide da perfeição daquele final, porque leitor de grande romance costuma ser pessimista mesmo. A felicidade plena parece uma piada aos olhos desse ser amargo. Ele olhará para aquele personagem que se julga feliz para sempre e suspirará: coitado.

É o caso de Ana Karenina, o grande romance de Leon Tolstoi. A trama é muito bem construída. Se eu não tivesse receio de usar essa palavra, diria que é perfeita, o que não me contradiz, porque imperfeitos são os personagens, mas sua vida comum se entrelaça de maneira... perfeita.

Tolstoi se afasta do maniqueísmo, do simplismo romântico. Todos os seus personagens são justificáveis, são produzidos socialmente. No entanto, assim como na vida real, não cabe absolver os erros pelo simples motivo de serem justificados. É concebível deixar um psicopata solto porque ele é fruto do seu meio?

Dessa maneira, em Ana Karenina assumimos o partido daqueles que provavelmente seriam nossos amigos, ou mesmo se justapõem a nós próprios. Eu tenho o meu mocinho. Mas em certos momentos das mais de setecentas páginas quis abandonar o meu mocinho e torcer por outros. Ler um livro como esse é uma auto-análise. É impossível sair dele sem ter mudado pelo menos um pouco.

sábado, 26 de maio de 2007

Passageiro

Passageiro, passa nessa vida. Passam coisas, lugares e pessoas
Passa o tempo, tempo cronológico, memória que se esvai nas incontáveis horas
O passado, passou. Passa enfim, o que ficou
Fica o que sobrou, o que deixou, o não esquecido

Memória guarda e recorda, recordações, uma fábrica de pensamentos
Pensar no que se foi, no passado, no que está guardado
Guardou-se para quê?
Para lembrar

Assim se vai, ficam, como o tempo
Tempo para viver, construir, trabalhar
Trabalho duro, e a vida? Viver? Para trabalhar?
E ver? Deixar passar?

Passado passa, somos passageiros de uma passagem, viagem de mão única, destino incerto, futuro a construir, estrada longa, percalços, distâncias
Coisas ficam pelo caminho, algumas nos acompanham até o fim da estrada, outras deixam de existir,
Ora esquecidas, ora deixadas, modificadas, fortalecidas, amadurecidas, evoluídas...
Passar causa dor, e amor

Tropeços no caminho, cicatrizes, absolutismos
Absoluto é a morte, morrer pelas palavras, pelas sensações, pelos atos
Morrer, passar
Tudo é passageiro

Palavra que fere como obsidiana, pensar-se-á o que será
Um lado desgastado, a moeda de uma cara, uma parte que se foi
Viagem de diversas partidas, destinos, e companhias
Viajar, passar, voar, ver, viver.

Fabíola Corrêa

segunda-feira, 21 de maio de 2007

A velha

Observo a senhora que resmunga na calçada
"posso ajudar?", alguém pergunta que não eu.
"Não!", responde furiosa.

Senti que aquela era a minha avó
de sangue
o sangue que corre no mundo é um só
A barata é minha irmã de sangue.

A senhora tinha duas pernas firmes
andava com decisão nos passos miúdos
(mas frutos de uma cogitação)

Sentou-se em uma cadeira velha na esquina
(quando uma pessoa senta em uma cadeira velha na esquina já não tem mais nenhuma vaidade)
Não falarei mais dela porque virei as costas
minha vida estava amadurecendo no coração
e a dela apodrecia, no ponto de ser (re)colhida
ainda me julgo importante demais - armadilha, enredos da vida.

Alan Araguaia

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Carlos e Mário

"Lembra daquele rapaz franzino que você conheceu quando esteve em Belo Horizonte?" O rapaz franzino era Carlos Drummond de Andrade, e a memória que ele tentava refrescar era de seu grande admirado, e xará de sobrenome, o modernista Mário de Andrade. O tom da missiva é bastante humilde, pois enquanto Carlos era um estudante de vinte anos que ainda se acanhava em se dizer poeta, Mário já tinha protagonizado o maior movimento artístico que houvera no Brasil até então: a Semana de 22.

Apesar da reverência, Carlos em nenhum momento foi intelectualmente submisso a Mário. Desde a primeira carta enviada (de um estudante para um artista muito importante) ele se posicionou firmemente contrário ao que era mais caro a Mário: o orgulho de ser brasileiro. Carlos afirmava: é impossível ser modernista no Brasil, com esse povo atrasado. O sonho frustrado do poeta em sua adolescência era ter nascido francês.

Mário não demorou para responder ao rapaz de Minas, apesar das suas muitas ocupações como membro do círculo intelectual paulistano, o mais badalado desde então. Nota-se em suas palavras o sorriso compreensivo com que uma pessoa mais experiente cumprimenta um jovem confuso: "Carlos, para você sempre vai haver uma pedra no meio do caminho!" Diz, demonstrando que leu com carinho os versos enviados por Carlos, pedindo encarecidamente que opinasse sobre.

O que incomodava Carlos, como o próprio veio descobrir com as "sessões de análise a distância" dadas pelo de Andrade paulista, não era bem o Brasil ou os brasileiros. Tanto é que logo nas primeiras cartas ele confessa que gosta do Brasil. Só que nunca fez o estilo de Carlos o "escrever em língua do povo", como era a escolha de Mário. O mineiro diz francamente que não concordava em reproduzir na literatura o péssimo vocabulário popular. Mário explica que não escreve propriamente em língua do povo, mas estiliza esse linguajar, criando um dialeto próprio. Pouco depois, Guimarães Rosa faria isso em um nível poético absurdamente refinado.

Se eu não fosse facilmente desmascarado, diria que tive acesso privilegiado às correrspondências entre esses dois grandes intelectuais da arte brasileira. TODA a correspondência dos dois está reunida no tijolaço Carlos e Mário, uma belíssima edição com retratos de ambos, pintados por Portinari.

Apesar das diferenças nunca resolvidas, Carlos e Mário se amavam, dada a constância de cartas que durou até os anos quarenta, quando o último morreu. Eles quase nunca se encontraram pessoalmente, mas eram bastante íntimos. Nas primeiras trocas de cartas ainda, Mário fez essa imagem do que ele sentia quando lia as palavras de Carlos: "você veio com o cigarro na mão, deu um tapinha em minhas costas e perguntou: 'vem cá, te incomodo?'"

Imagens: Retrato de Carlos e Retrato de Mário de Andrade, Cândido Portinari

Alan Araguaia