segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Contra argumentos não há fatos

É interessante notar o diálogo involuntário entre Jarbas Passarinho e João Ubaldo Ribeiro, os quais assinam artigos no jornal "O Liberal" de ontem (caderno Atualidades, p. 2). Ubaldo, em uma linha de raciocínio bastante coerente, expõe como os números, que a princípio não mentem, muitas vezes são instrumentos para as mentiras dos homens. Com fina ironia, o escritor baiano desanca Lula, um dos seus alvos prediletos.

Logo acima de se espaço, Passarinho confirma a tese. Mas não são exatamente números que o ex-ministro da ditadura militar manipula, mas os próprios fatos (conhecidos por sua imunidade contra argumentos). O coronel abre o seu texto soltando a seguinte pérola: "durante o ciclo militar, inclusive quando vigente o AI-5, as eleições livres foram mantidas regularmente". O leitor incauto poderá daí concluir que a ditadura foi uma invenção de conspiradores comunistas. A democracia nunca foi sequer ameaçada. O detalhe é que tais eleições contavam apenas com dois partidos, sendo que somente o da situação (Arena) podia expressar-se livremente. Qualquer manifestação contrária ao regime, como qualquer criança sabe, era suprimida - não raro com a supressão daquele que emitiu-a. E os cargos executivos mais importantes (governadores e presidente) não eram elegíveis. Com essas informações, a afirmação de Jarbas Passarinho mostra-se uma falsificação histórica.

Logo após, um dos homens mais poderosos e inteligentes do período militar diz-se alienado em relação ao próprio regime que integrou e tão bem defendeu - é dele a infame frase "às favas com os escrúpulos de consciência", dita em reunião que sancionou o AI-5 (dia 13 último o ato completou quarenta anos). Jura ele: "nunca ouvi falar da operação Condor, quando senador ou ministro que fui. Só há poucos anos dela tomei conhecimento". A operação Condor foi uma aliança dos governos militares do Cone Sul com o objetivo de aniquilar as organizações contrárias à ditadura. É estranho que o ex-ministro e líder do governo militar no Senado não estivesse à par de ação tão estratégica. Sinceramente não dá pra acreditar.

Sendo assim, acho que o título do artigo de João Ubaldo Ribeiro cairia melhor no de Passarinho: "Realidade, que realidade?"

Um comentário:

Aruana disse...

hahaha, é isso que dá o Liberal sair catando artigo por aí, mesmo embora os colunistas não necessitem (em tese) seguir fielmente a linha editorial do jornal, acontecer esse tipo de "diálogo involuntário" é hilário. O João Ubaldo é contratado de O Globo, que por sua vez repassa os direitos dos artigos pras suas afiliadas... aí vem um passarinho, que talvez nem tenha intenção de ser "colega" de um Ubaldo, e fala essas besteiras só pra, como escreveste, confirmar a tese. Ai... ele nem tenta florear com meias palavras o quanto ele é saudoso do regime militar, pelo menos é franco. :)