Ontem, pela primeira vez, vi o que os tecnólogos contemporâneos chama de "realidade aumentada". Trata-se de um dispositivo teconológico que produz uma virtualidade contínua, podendo ter vários usos, de acordo com o interesse do usuário.
Apesar do eufemismo do nome, acredito que estamos diante de mais uma das "pequenas revoluções" que permeaim o nosso tempo.
Muito se falou do Youtube, suas possiblidades de criação, de usos, dos impactos sobre o estatuto de verdade das notícias, sua influência sobre o jornalismo etc. Mesmo este simplório blog que vocês leêm agora, foi criado e desenvolvido numa dessas discussões, em sala de aula.
A realidade aumentada, ainda em construção (como tecnologia), trata de um sentido temporal mais enviesado e ambíguo, bem ao gosto do realtivismo a que nos submete o contemporâneo.
Dêem uma olhada no site do Jornal da Globo e vejam do que estou falando.
Para experimentar como funciona, clique aqui.
É basicamente o seguinte: você espera carregar o programa de webcam, clica em permitir e mostra a figura que você imprimiu (o link está na página da globo).
Quando você imprimir a figura, veja se a impressão está com uma boa qualidade. Outra coisa (que eles não dizem) se o papel for duro, melhor, porque aí o foco da câmera é mais certeiro. Eu fiz o seguinte: imprimi e dobrei o papel em partes de modo que ficasse bem o quadradinho da impressão.
Boa experiência pra você.
Fabrício Mattos
sexta-feira, 12 de junho de 2009
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Memórias esparsas I
No início da minha adolescência tive uma breve militância no Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). Minha irmã mais velha já fazia parte do PSTU há uns três ou quatro anos e, evidentemente, isso me influenciou. Nasci em uma família de esquerda: meu pai se definia como anarco-sindicalista, além de simpatizante do PSTU. Tendo algumas idéias do que significava ser anarco-sindicalista, não entendia como ele podia simpatizar com o partido. Enfim. Desde cedo, o meu vício de exigir coerência alheia se apresentava.
Mas esse texto pretende ser um inventário de minha "trajetória política". Até para descobrir no que hoje eu acredito e no que deixei de acreditar.
No início de 2002, após um congresso partidário, me afastei do PSTU. O verbo "afastar" é bem apropriado. Não me "desliguei" do partido. Simplesmente deixei de ir, sem dar explicações. Junto com Flávio, Josi, Aruana (lembro que minha irmã estava meio em cima do muro), Solano, e acho que o Krato também, fiz parte da tendência minoritária - que acabou continuando minoritária, nossas teses foram derrotadas. Hoje tenho uma certa vergonha por não me lembrar o que eram exatamente essas teses. Sei que eram as mais legais. Eram um tanto heterodoxas, e isso me agradava.
Esse fato - não lembrar das teses - talvez seja sintomático de uma característica de minha participação na política - não sei se boa ou ruim: o "estar junto", o sentimento de identificação era o que mais me interessava. Quando se falava em revolução, minha mente e coração eram mobilizados menos pela idéia da sociedade justa e igualitária dela resultante, do que a sensação inebriante de "tomar o poder", acompanhado por uma multidão de companheiros. Imaginava nós juntos cantando os hinos comunistas, arrastando os burgueses aos paredões, com aquele sentimento que deve ser inigualável de protagonizar um grande momento da História.
Sim, a dimensão estética da Revolução me interessava (bem) mais do que a política. Escrevo isso como uma constatação que surge nesse momento, não querendo fazer nenhuma defesa.
Após essa militância no PSTU, tive algumas poucas experiências organizativas. Não queria rumar para as outras correntes que existiam (algumas ainda estão aí): Força Socialista, CST, PCdoB, Articulação... pensava que se desgostara do PSTU, não seriam esses que me empolgariam.
Era também o que pensavam alguns companheiros que haviam saído do PSTU. Eu, Flávio, Josi, Valdir, Karina, Léo, Fábio... começamos a nos reunir, a estudar a conjuntura. "Caracterizávamos" (há muito tempo não uso essa palavra!) que o movimento de massas vivia um momento de refluxo. Os ativistas e as massas estavam desiludidas com as lideranças, que cada vez mais se "endireitavam". Ainda hoje, concordo com essa visão. A esquerda no poder não é tão diferente assim, afinal. Pra dizer o mínimo.
Nosso grupo, que chamamos de "G", por brincadeira, não durou muito. Não sei dizer por quê. Acho que desanimamos. Éramos muito pequenos! Cada um foi cuidar da sua vida.
Aí ingressei no curso de Comunicação Social da UFPA. Com 17 anos, já estava cansado de muita coisa. Olhava com ceticismo o movimento estudantil universitário. Ali certamente tinha um monte de arrogância da minha parte, mas encarava o entusiasmo de meus colegas em descobrirem a política como uma coisa infantil. Centro acadêmico, passagens em sala de aula para mobilizar contra isso, contra aquilo, ocupação do prédio da Reitoria... olhava para tudo isso e me perguntava: para quê? No começo acompanhei um pouco o movimento, mais por força do hábito do que por outra coisa. E também porque as meninas eram bonitas. Era gostosa aquela companhia.
Hoje, após um tempo de canseira que embaralhou minhas idéias, questiono-me sobre o que sobrou de toda essa história. Só uma coisa parece ser certa: continuo de esquerda.
Alan Araguaia
Mas esse texto pretende ser um inventário de minha "trajetória política". Até para descobrir no que hoje eu acredito e no que deixei de acreditar.
No início de 2002, após um congresso partidário, me afastei do PSTU. O verbo "afastar" é bem apropriado. Não me "desliguei" do partido. Simplesmente deixei de ir, sem dar explicações. Junto com Flávio, Josi, Aruana (lembro que minha irmã estava meio em cima do muro), Solano, e acho que o Krato também, fiz parte da tendência minoritária - que acabou continuando minoritária, nossas teses foram derrotadas. Hoje tenho uma certa vergonha por não me lembrar o que eram exatamente essas teses. Sei que eram as mais legais. Eram um tanto heterodoxas, e isso me agradava.
Esse fato - não lembrar das teses - talvez seja sintomático de uma característica de minha participação na política - não sei se boa ou ruim: o "estar junto", o sentimento de identificação era o que mais me interessava. Quando se falava em revolução, minha mente e coração eram mobilizados menos pela idéia da sociedade justa e igualitária dela resultante, do que a sensação inebriante de "tomar o poder", acompanhado por uma multidão de companheiros. Imaginava nós juntos cantando os hinos comunistas, arrastando os burgueses aos paredões, com aquele sentimento que deve ser inigualável de protagonizar um grande momento da História.
Sim, a dimensão estética da Revolução me interessava (bem) mais do que a política. Escrevo isso como uma constatação que surge nesse momento, não querendo fazer nenhuma defesa.
Após essa militância no PSTU, tive algumas poucas experiências organizativas. Não queria rumar para as outras correntes que existiam (algumas ainda estão aí): Força Socialista, CST, PCdoB, Articulação... pensava que se desgostara do PSTU, não seriam esses que me empolgariam.
Era também o que pensavam alguns companheiros que haviam saído do PSTU. Eu, Flávio, Josi, Valdir, Karina, Léo, Fábio... começamos a nos reunir, a estudar a conjuntura. "Caracterizávamos" (há muito tempo não uso essa palavra!) que o movimento de massas vivia um momento de refluxo. Os ativistas e as massas estavam desiludidas com as lideranças, que cada vez mais se "endireitavam". Ainda hoje, concordo com essa visão. A esquerda no poder não é tão diferente assim, afinal. Pra dizer o mínimo.
Nosso grupo, que chamamos de "G", por brincadeira, não durou muito. Não sei dizer por quê. Acho que desanimamos. Éramos muito pequenos! Cada um foi cuidar da sua vida.
Aí ingressei no curso de Comunicação Social da UFPA. Com 17 anos, já estava cansado de muita coisa. Olhava com ceticismo o movimento estudantil universitário. Ali certamente tinha um monte de arrogância da minha parte, mas encarava o entusiasmo de meus colegas em descobrirem a política como uma coisa infantil. Centro acadêmico, passagens em sala de aula para mobilizar contra isso, contra aquilo, ocupação do prédio da Reitoria... olhava para tudo isso e me perguntava: para quê? No começo acompanhei um pouco o movimento, mais por força do hábito do que por outra coisa. E também porque as meninas eram bonitas. Era gostosa aquela companhia.
Hoje, após um tempo de canseira que embaralhou minhas idéias, questiono-me sobre o que sobrou de toda essa história. Só uma coisa parece ser certa: continuo de esquerda.
Alan Araguaia
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Conto parágrafo
O olhar dela havia de súbito mudado. Como se uma sombra espessa tivesse ali se instalado, sombra que ocultava-lhe completamente a visão. E ficava ali, rondando, sem coragem de verbalizar a pergunta que trazia na cabeça: o que houve? Ficava ali, ruminando, até que, cansado, dizia amanhã nos vemos. Ela assentia com a cabeça, levava-o até a porta e agora a sombra estava mais intensa, faiscava-se. Ia embora cheio de perguntas, debatendo-se todo para livrar-se delas. Já estava longe, na rua, não admitia tamanha intromissão. Queria seu raciocínio e energia de volta. Difícil tarefa. Nesse dia andou mais do que o habitual, procurando, procurando.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Valeu, Fábio.
Fábio Castro despediu-se hoje da Secretaria de Estado de Comunicação (Secom). Foi aplaudido pelos servidores, ganhou uma placa de homenagem e fez questão de tirar fotos com todos os presentes. Tenho grande admiração e respeito pelo professor Fábio, que fez um trabalho intelectual e moralmente honesto na Secom. Fica aqui o meu reconhecimento.
Alan Araguaia
Alan Araguaia
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Um encontro casual
Andava nas ruas abarrotadas de gente no centro, olhando para um depois para outro, tentando adivinhar o que significavam aquelas fisionomias. Não era algo meditado, não havia ciência alguma nesse ato. Simplesmente impulso, ao qual se entregava autocomplacente. Um homem em particular chamou-lhe a atenção em todo aquele movimento. Vestido com um roto paletó e calças um pouco curtas para si, deixando entrever as canelas finas, andava de um lado para o outro como quem busca uma solução. Mas não parecia concentrado em reflexões, pelo contrário: dedo em riste, livro grosso aberto na mão, dirigia-se a todos os passantes. De certo fazia um discurso. Trinta anos haviam se passado desde que deixou o colégio, mas reconheceu Frederico, o amigo inseparável. Aproximou-se surpreso, mas feliz com aquele reencontro.
"Arrependam-se", gritava Fred, exaltado. "Esse é o último chamado dos céus!" Sorriso tímido, ele caminhava devagar na direção do amigo de outros tempos. Mais retraído ficou quando ao fitá-lo, Fred não esboçou nenhuma alteração, mantendo os mesmos olhos injetados. "Tu, irmão, não mais andes sem rumo, com um vazio no coração. Ouça o chamado de Deus!", bradou em sua direção. Assustado com a admoestação particular, já desanimara de reavivá-lo a lembrança. Ainda assim, esforçando a voz para fora, perguntou: "Fred, és tu?".
Surpreso com a interpelação, coisa rara naquele seu ofício, o pregador franziu ainda mais a testa e assim ficou durante longos segundos. A essa altura, o outro já se recriminava duramente por ter se aproximado. "Que bobagem! Faz tanto tempo que não nos vemos! Devia ter seguido meu caminho", pensava angustiosamente. "Desculpe, amigo, continue seu trabalho", despediu-se afoitamente. Mas quando preparava o primeiro passo adiante, Fred conteve-o com a mão e disse:
"Deus marcou esse encontro. Vivi esses anos a mais amarga vida, por desobediência às suas sagradas leis", declarou em tom de cerimônia. Ele não podia conter mais o desagrado da situação. Sua mente dizia: "Fuja!" Mas ficou, receando magoar o amigo. Ouviu Fred relatar durante cinco minutos todo o sofrimento por que passara, tendo sido mendigo e adquirido doenças incuráveis. "Foi aí que a dor forçou-me a entrar em uma igreja, converti-me e hoje vivo feliz", concluiu, e só aí abriu um largo sorriso. Abraçou-o emocionado, e fez o convite para ir assistir o culto à noite. Ele aceitou vivamente, pegou um folheto e despediu-se. "Até mais tarde!", ainda gritou de longe. Nunca mais viu Fred naquela rua abarrotada do centro.
"Arrependam-se", gritava Fred, exaltado. "Esse é o último chamado dos céus!" Sorriso tímido, ele caminhava devagar na direção do amigo de outros tempos. Mais retraído ficou quando ao fitá-lo, Fred não esboçou nenhuma alteração, mantendo os mesmos olhos injetados. "Tu, irmão, não mais andes sem rumo, com um vazio no coração. Ouça o chamado de Deus!", bradou em sua direção. Assustado com a admoestação particular, já desanimara de reavivá-lo a lembrança. Ainda assim, esforçando a voz para fora, perguntou: "Fred, és tu?".
Surpreso com a interpelação, coisa rara naquele seu ofício, o pregador franziu ainda mais a testa e assim ficou durante longos segundos. A essa altura, o outro já se recriminava duramente por ter se aproximado. "Que bobagem! Faz tanto tempo que não nos vemos! Devia ter seguido meu caminho", pensava angustiosamente. "Desculpe, amigo, continue seu trabalho", despediu-se afoitamente. Mas quando preparava o primeiro passo adiante, Fred conteve-o com a mão e disse:
"Deus marcou esse encontro. Vivi esses anos a mais amarga vida, por desobediência às suas sagradas leis", declarou em tom de cerimônia. Ele não podia conter mais o desagrado da situação. Sua mente dizia: "Fuja!" Mas ficou, receando magoar o amigo. Ouviu Fred relatar durante cinco minutos todo o sofrimento por que passara, tendo sido mendigo e adquirido doenças incuráveis. "Foi aí que a dor forçou-me a entrar em uma igreja, converti-me e hoje vivo feliz", concluiu, e só aí abriu um largo sorriso. Abraçou-o emocionado, e fez o convite para ir assistir o culto à noite. Ele aceitou vivamente, pegou um folheto e despediu-se. "Até mais tarde!", ainda gritou de longe. Nunca mais viu Fred naquela rua abarrotada do centro.
sábado, 9 de maio de 2009
Surto psicótico
Não resistindo aos seus impulsos mórbidos, desde ontem o caderno Polícia do jornal Diário do Pará traz fotos de cadáveres (mal) ocultados por tarjas pretas. Nelas, os dizeres: "Censurado pela Justiça do Pará". Dá vontade de rir de tamanha falta de senso de realidade. Será que eles esperam uma manifestação popular em seu favor?
quinta-feira, 7 de maio de 2009
A porta-voz não solicitada
Para quem Eliane Cantanhêde fala? A pergunta me ocorreu após ler a sua coluna de hoje, reproduzida no Diário do Jader Barbalho, p. B-2. É muito ladina, essa Eliane. Ela me fisgou pelo primeiro parágrafo da coluna, em que ironiza a esquizofrenia do nosso presidente, ao tratar pilantras do quilate de Collor e Renan Calheiros como velhos companheiros. Até aí tudo bem. "Gente boa, essa Eliane", penso ingenuamente, enquanto sigo a leitura. No entanto, o verdadeiro objetivo do texto revela-se na segunda metade: fazer lobby pela privatização da Infraero. Em seu vocabulário neo-liberal, privatização é sinônimo de "sanear cargos, finanças e operações".
Para Eliane, o remédio para o mal da corrupção e da "boquinha" é privatizar. Ou seja: se é pra particulares apropriarem-se indevidamente dos bens públicos, que estes deixem de ser públicos, oras. Simples, não? Mas eu discordo.
Não vou dizer que sou essencialmente contra toda e qualquer privatização (também não sou a favor). Mas percebi no texto de Eliane Cantanhêde uma tentativa descarada de manipular a opinião pública, tratando a privatização como se fosse uma bandeira nacional. Fazendo crer que os empresários são todos homens de bem, interessados no progresso do país. Veja por exemplo esse trecho: "ao contrário de governos, empresário sério não põe seu rico dinheirinho em empresas bagunçadas e suspeitas". Certo. Mas onde estão esses empresários sérios? Certamente que não nos setores já privatizados, como o das Telecomunicações, envolvida até o pescoço em todos os escândalos nacionais da última década. Quem duvida que é essa mesma turma - que apesar de tantas denúncias é tratada pela mídia como "empresários sérios - a maior candidata a abocanhar o setor de aeroportos?
Eliane diz ao final do texto, incluindo-me sem a minha vontade em seu bloco: "a gente fica de olho". Não tenho a menor dúvida disso.
Para Eliane, o remédio para o mal da corrupção e da "boquinha" é privatizar. Ou seja: se é pra particulares apropriarem-se indevidamente dos bens públicos, que estes deixem de ser públicos, oras. Simples, não? Mas eu discordo.
Não vou dizer que sou essencialmente contra toda e qualquer privatização (também não sou a favor). Mas percebi no texto de Eliane Cantanhêde uma tentativa descarada de manipular a opinião pública, tratando a privatização como se fosse uma bandeira nacional. Fazendo crer que os empresários são todos homens de bem, interessados no progresso do país. Veja por exemplo esse trecho: "ao contrário de governos, empresário sério não põe seu rico dinheirinho em empresas bagunçadas e suspeitas". Certo. Mas onde estão esses empresários sérios? Certamente que não nos setores já privatizados, como o das Telecomunicações, envolvida até o pescoço em todos os escândalos nacionais da última década. Quem duvida que é essa mesma turma - que apesar de tantas denúncias é tratada pela mídia como "empresários sérios - a maior candidata a abocanhar o setor de aeroportos?
Eliane diz ao final do texto, incluindo-me sem a minha vontade em seu bloco: "a gente fica de olho". Não tenho a menor dúvida disso.
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