sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Onde está o cartaz do Círio de Nazaré?

O Círio de Nossa Senhora de Nazaré é repleto de simbologias, dentre eles o cartaz cumpre um importante papel. Além da publicidade, a Igreja Católica reafirma sua hegemonia através da imagem da santa estampada no papel colado em diversas portas de casas e de estabelecimentos comerciais. O cartaz reafirma anualmente o quanto a Igreja é forte em nosso Estado, principalmente em período de Círio.

Contudo, o cartaz também revigora e demonstra a fortalecedora fé que o paraense deposita em sua padroeira. É uma forma das pessoas pedirem bençãos e proteção.

Anualmente produzido desde 1926- o primeiro foi confeccionado em Milão, o cartaz daquele ano apresenta linhas de inspiração Renascentista (abaixo). Ele não contém uma foto, e sim uma pintura da Santa rodeada de anjos.

Passados os anos, o simples objeto passou a ter um papel fundamental dentro da festividade Nazarena. No ano de 2007 foi apresentado em suntuosa cerimônia na Praça Santuário no dia 29 de abril, na qual os convivas se viram diante de um show pirotécnico por de trás de gigantes banners pendurados em frente à Basílica de Nazaré.

Quem detém os direitos de imagem do cartaz é a Diretoria da Festa do Círio de Nazaré. Certas empresas o reproduzem com a devida autorização, a fim de presentear clientes e amigos. O dinheiro que se arrecada com essa reprodução via empresas vai todo para as obras sociais da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.

Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio- Econômicos (Dieese)/PA, foram confeccionados para o Círio 2007 cerca de 550 mil cartazes pela Diretoria da Festa. Este número foi acrescido até 700 mil com as confecções feitas diretamente pelas empresas.

O crescimento da tiragem oficial no número de cartazes deste ano em relação ao passado foi de 37,5 %, já que o total produzido em 2006 foi de 500 mil. Nos últimos 10 anos, o número de exemplares aumentou em mais de 120%.

O valor unitário de produção varia entre cinqüenta centavos à um real, ou seja, se calcularmos 700 mil cartazes a um custo de 0,75 centavos, o valor investido seria de 490 mil reais, dinheiro vindo em grande parte da contribuição de fiéis.

Todo ano a foto é feita com a imagem usando o manto do Círio anterior. Em 2007, a imagem apresenta o manto bordado de rosas usado em 2006, e a foto é de autoria de Rosângela Aguiar. A arte ficou por conta da Mendes Publicidade, tarefa que a agência cumpre voluntariamente desde 1991, e traz um fundo repleto de vitórias-régias, fazendo alusão ao tema da Campanha da Fraternidade 2007: a Amazônia. Já o tema do Círio 2007 é “Com a Rainha da Amazônia, formemos comunidades missionárias”.

Com ares de ala da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, a edição 2007 lembra um pouco a de 2003, no qual há diversas flores rosas de jambeiro espalhadas ao pé da árvore, entre algumas folhas verdes.

Particularmente agradou-me o cartaz de 1901, em que a santa está com um manto bem largo, parecendo a saia das baianas que vendem acarajé e cocada pelas ruas da cidade durante o Círio.


Muita gente ainda tem na porta de casa o cartaz do Círio do ano anterior e, andando pela cidade, percebi que dentro de um mesmo perímetro há em torno de 10 casas contendo cartazes. Resolvi então fotografar com o celular algumas delas, e agora lanço um desafio: você sabe em que parte da cidade de Belém (rua, bairro, perímetro, estabelecimento, etc) se encontra o cartaz da fotografia abaixo?



Sabe? Lance suas respostas nos comentários da postagem no blog. Diariamente colocarei novas imagens e, a não ser que alguém acerte a localização, direi o ponto exato daqui há uma semana (a resposta estará nos comentários, assinada por mim).

Fabíola Corrêa

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Mostra de fotografia "Círios: várias festas em uma"


A mostra ainda conta com o apoio da Copy Center.
O evento foi noticiado no dia 30.10 pelo Portal ORM e
também no site Acorda Pará.

Não deixem de visitar!!!

Fabíola Corrêa

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Da inteligência superficial para a inteligência experimental

Sabe, esse negócio que a mídia não aprofunda nada é realmente um problema. Mas também, outras questões são relevantes: como, num ritmo frenético de jornal, tu vais ter tempo pra aprofundar todos os assuntos pautados?
Além disso, como esse aprofundamento é possível já que não temos como saber, principalmente os jornalistas, especificamente de todos os assuntos?

Digamos, cientificamente, que o mais provável é a mídia repetir os significados que estão presentes no entorno social, mas, ao mesmo tempo, não dá pros profissionais serem todos nivelados por baixo. Mesmo quando tu escreves uma matéria do caderno polícia, por exemplo, sem querer chamar a atenção, levando pro lado humanista e tal, vem depois um editor e transforma o teu texto num cartaz com aquela manchete que tu não escrevestes: "MORTO SEM SABER PORQUÊ". Enfim, um dilema.

Eu, pelo menos, sinto falta da mídia falando da própria mídia. E eu não to falando do Alberto Dines, porque que às vezes, sinceramente, é um saco esse Observatório da Imprensa. Eu digo outras mídias falando das mídias porquê acho interessante essa história de "seja a sua própria mídia", hoje tão propagada pela internet. A coisa é tão improtante que nós vimos que já fizeram até campanhas pra descredibilizar os blogs.

Polêmicas à parte, o que eu digo não é apologia às novas tecnologias, mas acho que é uma forma de colocar representações múltiplas, nem melhores nem piores, esse filtro cada um vai fazer, desde que existam. E que existam para além dos modos de dizer do jornalismo tradicional e da empresa que vende a mercadoria-informação ou imagem-marca.

Ainda falando cientificamente, a mídia não é um ator social "par excellence". Os críticos falam de mídia como falam de globalização : "a mídia isso, a globalização aquilo"... Como premissa acho bom pensar que a globalização é um processo que não tem um direcionamento único e a mídia é um campo social, onde ocorrem disputas de poder. Isso é básico.

O que estamos discutindo, sobre a "inteligência superficial" da mídia, também é relativo. Lemos coisas absurdas tanto na Caros Amigos quanto na Veja, ou no Diário e Liberal. Mas notem os tempos diferentes: revista mensal, revista semanal, jornal diário: representações diferentes, fontes diferentes, apuração diferenciada. e nem estamos falando da instantaneidade do jornalismo na internet ou no rádio.

Hoje, por exemplo, vi uma entrevista excelente no Jornal do SBT sobre as Hidrelétricas que estão sendo pensadas na Amazônia. O cara não era daqui o nome dele era Glen não sei o quê, e ele é especialista em questões de energia na Amérrica Latina. Ele detonou, dizendo inclusive que " é impensável que a REDE CELPA leve energia a todos as populações ribeirinhas da Amazônia" E prosseguiu dizendo que uma iniciativa viável era a energia solar para essas populações. Ele disse também do descaso das empresas com as famílias desabrigadas, afirmando que 70% deles não tem nenhum reembolso, falou da questão dos interesses internacionais etc. Só não foi melhor por causa do entrevistador, e acho que aqui que a gente entra. (Se fossemos nós seria melhor? E se fosse um ribeirinho despossado pelas barragens, como seria? E se fosse um representante da CELPa? E se fosse....) Penso que é nessa disputa de acesso que a gente se encontra hoje.

Acho que a vantagem da internet e de ser a sua própria mídia tá no que o Bourdieu fala de conhecimento da intenção. Ele usa o exemplo de Wittgenstein: "uma intenção, encarna-se numa situação, em costumes e em instituições humanas. Se a técnica do jogo de xadrez não existisse, eu não poderia ter a intenção de jogar o xadrez." Nas palavras de Bourdieu: "A intenção política só se constitui na relação com um estado do jogo político e, mais precisamente, do universo das técnicas de ação e de expressão que ele oferece em dado momento".

O caso é que eu já vi Bourdieu sendo citado até pelo Mainardi, ou seja, toda construção é apropriação, desde a "inteligência superficial" até a inteligência experimental, passando também pela inteligência artificial.

Pra compartilhar um pouco dessas intenções e experimentações e maneira diferenciada de se apropriar da mídia, deixo vocês com um vídeo muito doido que eu assisti ainda agora no Youtube. É do glauber rocha. É uma homenagem ao Dicavalcanti, sendo filmado no dia do seu enterro. Ele tem uma idéia de nacional muito diferente da idéia de integração nacional que as redes de televisão, principalmente a Globo, construiram pra nós. Divirtam-se.

Fabrício Mattos

Glauber - Di cavalcanti Di Glauber - parte 1


Glauber - Di Cavalcante Di Glauber - parte 2

sábado, 13 de outubro de 2007

O "Auto" da Naza

Do sagrado ao profano, assim é o Círio. Entre romarias, orações e pedidos de perdão, a festa regada de amor é palco para o pecado. No ano de 2007, a grande romaria do Norte do país trouxe de volta a encenação popular conhecida como “Auto do Círio”.

Por falta de patrocínio em 2006, o “Auto” ficou fora do calendário de festas.Contudo, este ano contou com o apoio do Governo do Estado através da Secretaria de Cultura - Secult e Universidade Federal do Pará - UFPA, o que possibilitou estar mais uma vez pelas ruas da Cidade Velha.

Da música à dança e ao teatro, o “Auto” colore e teatraliza as sextas-feiras anteriores ao domingo de Círio. Na reza, os devotos clamam seu louvor à Virgem Maria e por mais um Círio de vida.

A crença de uma vida mais abençoada traz à cidade turistas, repórteres, fiéis e curiosos. O colorido, a devoção e a comoção popular são o mote para tornar o evento cada vez mais conhecido.

Criado em 1993 pelo Núcleo de Arte- Nuar, da Universidade Federal do Pará, o evento em forma de cortejo foi dirigido nos seus dois primeiros anos por Amir Hadad. Miguel Santa Brígida, o homem responsável por dirigir o projeto desde 1996, nomeou Dominguinhos do Estácio, sambista da escola de samba carioca Estácio de Sá, como padrinho do “Auto do Círio”.

À seguir, alguns momentos da encenação embalados pelos cânticos à N. Sra., cobertos de brilho e fé:

























Fabíola Corrêa

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Engendre la façon

A instalação de vídeo "Permanência", de Val Sampaio e Mariano Klautau Filho,
ficou com o grande prêmio no 26º Salão Arte Pará

ARt
Découvrir
Sentir

Ouvre
Régarde
Interager

Marcher

Barrer une trace du réspiration

Fouler

Sentir la sensation

Prendre em photo
Experimenter le voix du coeur

Peindre
Écrire
Installer la installation
Filmer cette moment

Por quoi?
Qu’est-ce qu´il a sur le mur?

Brique de la réflexion

Avec noir, dormir le narcisism,
sous la imagination du décrire

Construire un fragment de nous

Part

Répart

PAragraphe

RApport.


Fabíola Corrêa

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Intolerância profissional

Marx tinha razão ao falar da especialização cada vez mais específica no mundo do trabalho. O teórico que entre outras coisas conseguiu o feito de inspirar desde alguns dos mais bobos até dos mais geniais exemplares da espécie humana, previu que esse fenômeno seria responsável pela alienação do trabalhador em relação ao produto do seu trabalho (o cara olha um computador por exemplo, e se pergunta meio desconfiado: "eu ajudei a fazer isso?").

Pois bem, eu não sei se Marx previu isso que pude verificar, ou se posso me proclamar o herdeiro do seu legado: além de alienados, ficamos sectários em relação aos colegas que apertam o parafuso B. Basta frequentar um curso de Comunicação por exemplo, para ver como o estudante de publicidade despreza o de jornalismo e vice-versa. Isso se assemelha a conflitos religiosos entre judeus e muçulmanos (até na questão da raiz comum). Na minha sala havia uma clara fronteira geográfica - publicidade ao ocidente e jornalismo ao oriente. Às vezes alguns colegas (não sei se em missão de paz ou provocação), cruzavam a fronteira e se instalavam em território inimigo, gerando estranhamento. Havia também estudantes de jornalismo que se convertiam à publicidade, pelo menos nas relações pessoais.

Ainda não tinha despertado para a dimensão generalizada dessa situação até ontem, quando aconteceu de eu estar almoçando com profissionais e estudantes da área biológica. Conversa vai, conversa vem e eu boiando (eles estavam em calorosa discussão sobre quem iriam presentear com as preciosas bolsas de estudo). "Vamos ver como fulano se desempenha", falou uma jovem professora sobre um ansioso e brilhante calouro de 16 anos, tendo o destino do rapazito nas mãos. "Ele pensa que é só chegar e ir ganhando bolsa? Não é assim não, meu bem!", sapecou outra sobre mais um aspirante.

De repente eles notaram o elemento estranho que comia quieto, sem ter como tomar parte no julgamento, digo, na conversa - eu. A jovem, bonita e simpática professora quis saber o que eu fazia da vida. "Estudo jornalismo", respondi. Pra quê eu fui falar? Todos os pecados do jornalismo agora teriam de ser explicados por mim! "Por que quando damos uma entrevista sempre sai errado?", perguntou a inquiridora mais implacável. Tive vontade de dizer pra ela perguntar a quem a entrevistou por que diabos não escreve certo. Mas eu estava em território estrangeiro, devia ser diplomata. "Ah, é porque eles querem simplificar a história e têm pressa de publicar", falei (e não deixei de ser sincero). Fui alvejado por uma série de questões sobre se isso é certo ou errado, virei ouvidor da categoria - ou como se diz no jargão jornalístico, ombudsman. Prometi dar o meu jeito: "não se preocupem, suas queixas foram anotadas".

Mas eu comecei falando do Marx, trabalho especializado... ah, claro. Eu também fiquei curioso em partilhar um pouco do conhecimento específico daquele grupo. Acabei cometendo uma gafe gravíssima. Tomando refrigerante, uma das moças comentou que refrigerante na garrafa de vidro é mais gostoso. Um barbudinho concordou, opinando que é porque fica mais concentrado. Eu também sempre pensei isso! Fiquei feliz em ver minhas idéias defendidas por outros. Era a oportunidade: "Vocês que são da área, queria saber porque isso acontece", perguntei, com curiosidade de aprendiz de cientista. "Ih, isso é assunto de química", desprezou a jovem ao meu lado. O barbudo foi mais longe: "engenheiro de alimentos", balançando a mão em sinal de distância. Note-se: distância do engenheiro de alimentos, não da engenharia de alimentos. Enquanto isso, fiquei com a impressão de que só não sabia porque perdi na infância algum "X-tudo" ou "Mundo de Beckman" que falava exatamente disso.

O velho Marx, se fosse vivo, completaria a sua tese: a especialização causa alienação
do trabalho e desunião na classe trabalhadora.

Alan Araguaia

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Jornal de ontem, notícia de anteontem

Uma das grandes dificuldades em acompanhar a mídia é a enxurrada de "informações" que ela descarrega diariamente na atmosfera. Assuntos relevantes acabam sendo mais descartáveis que um cotonete, quando poderiam dar ocasião para grandes debates - é o caso da apocalíptica (não em sentido pejorativo) previsão de que a continuarmos nesse ritmo de consumo, o mundo entrará em colapso em poucos anos. Ora, o assunto é da mais alta importância, porque sem mundo não teremos mais o jogo de futebol, a violência nas grandes cidades, a lenga-lenga de Brasília, "Paraíso Tropical", etc infinito. Mas assim como nos acostumamos com a idéia de que a periferia é uma praça de guerra mesmo e o melhor é ficar longe, estamos já mais ou menos conformados que o metano não tarda a nos sufocar, os oceanos vão avançar sobre os litorais e vai ter que começar tudo de novo (não sei se aqui ou em outra esfera suspensa no vácuo).

A coisa está tão séria que não faltam metidos a sabichões a dizer (acho tão bonito a forma lusitana pro presente contínuo) que é "lugar comum" falar do aquecimento global, do tsunami, da escassez de petróleo... coisa de quem não tem o que falar. A sanha por um assunto novo a cada edição cega as pessoas. A nossa mania de não se aprofundar em nada, ver as coisas passarem, ainda nos leva pro buraco. Por falar nisso, alguém sabe como anda aquele da camada de ozônio?

Alan Araguaia